Cuidados, Dicas e Notícias
Como lidar com o luto do animal que perdeu seu dono? (15/11/2019)

Parada, olhando para o horizonte, Nala espera Emiliano. A cena se repete com Nina, que aguarda Ricardo chegar no meio da noite, como faz há três anos. Nala e Nina desejam que seus tutores queridos – respectivamente, o jogador argentino Emiliano Sala e o jornalista Ricardo Boechat – voltem, algo que não pode mais acontecer, pois eles morreram recentemente em acidentes aéreos. 

As fotos das cadelas à porta, compartilhadas nas redes sociais, emocionaram milhares e reacenderam dúvidas: é possível que os animais vivam o luto? E, se sim, como os humanos devem ajudá-los? Essas questões vinham sendo discutidas desde dezembro de 2018, quando Sully, o cão de companhia do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush (pai), apareceu prostrado no velório do tutor. 

O luto animal ainda é pouco estudado, mas há consenso de que bichinhos sofram tristeza pela ausência momentânea (no caso de viagens, por exemplo) ou permanente de alguém ou de algum pet próximo. Pesquisas também comprovam que os animais podem ter depressão.

Segundo os veterinários, a psicologia animal está investigando o tema, mas alguns sentimentos são entendidos como humanização: o luto é algo humano, de apego emocional após um elo construído. Nesse formato, não se conhece nada nas espécies animais, mas vemos que cães, gatos e até animais silvestres demonstram carinho e dependência e que, na perda do tutor ou do companheiro, podem ter depressão – esta, sim, uma patologia reconhecida, que pede tratamento psicoterápico.

Ainda segundo os profissionais da saúde animal, cães abandonados também podem apresentar a doença, bem como os que lidam com a chegada de outro pet ou de um bebê a seu lar. Há cães que, inclusive, morrem por depressão. Parece extremo, mas a dor do abandono traz efeitos físicos, e esse sofrimento é tão grande quanto o nosso.

Como ajudar, então?

Para evitar que o quadro se agrave, é preciso manter atenção ao comportamento dos pets: além de ficarem apáticos, eles podem parar de brincar, comer menos ou não comer por dias.

Não há uma cartilha do que fazer para ajudá-los, já que cada animal tem suas peculiaridades, e muitos até saem do luto sozinhos, mas alternativas que simulem companhia, como manter o rádio ligado ou uma pelúcia, podem ser de grande ajuda para alguns.

Os especialistas explicam que a situação pode ser pior entre animais que nunca viveram sozinhos: foi também o caso de Elvis, cachorrinho da jornalista Letícia Damasceno, que perdeu seu irmão, Raul, por um mal súbito, há alguns meses. Eles, juntos de outra cachorrinha, Nazaré, foram adotados com um mês de vida e conviveram por quase dez anos.

“O Elvis ficou muito prostrado quando voltei pra casa sem o Raul. Ele teve dificuldade para voltar à vida normal, para comer. A fase crítica já passou, mas acho que até hoje ele não está normal, um pouco da alegria acabou indo. A Nazaré demonstra menos”, conta. Uma atitude que Letícia tomou, além de intensificar carinho e atenção, foi organizar uma viagem de férias em que pudesse incluir os dois pets, que aproveitaram a distração.

Alguns especialistas defendem a prevenção como melhor saída, mas também dizem que, no geral, é importante manter a rotina do animal que ficou, inclusive deixando a mesma casinha que o pet dividia com o outro – o cheiro ajuda a manter a familiaridade. Por outro lado, mudanças pontuais podem ser necessárias. A previsibilidade é importante principalmente para os cães, mas, se o cachorro fica esperando o tutor, é interessante colocar alguma alguma atividade, como um passeio, naquele horário específico.

Prevenção é a melhor alternativa

Agir antes da morte de um tutor ou de um cão que conviva com outros é a melhor alternativa para garantir que o luto animal não se prolongue. É importante estimular a individualidade do animal, sobretudo de cães, naturalmente mais propícios à dependência.

A socialização é feita nos quatro primeiros meses do cão. Há estudos que mostram que nesse período ele deveria conhecer 150 pessoas, além de outros animais. Colocá-lo em situações que criem certa dificuldade e fazê-lo aprender a lidar com frustrações, com perdas e mudanças.

Além disso, o tutor precisa criar hábitos para cada bicho, sair para passear só com um, levar ao veterinários sozinho. Caso contrário, se um animal morre, todos vão sentir muito se faziam tudo juntos. Se o tutor mora sozinho com o cão, é importante anotar as brincadeiras e alimentos favoritos para que, no caso de uma fatalidade, o animal não sofra com mudança, além da perda do tutor.

Métodos aliviam dificuldades

Caso o animal não se recupere sozinho após a perda de um tutor ou de um companheiro animal, nem com a ajuda de outro humano, pode ser preciso procurar um especialista. Adestradores, terapeutas e veterinários utilizam diferentes métodos.

Quando houver a obrigação de mudança de residência do animal, por exemplo, existe até mesmo a possibilidade do uso de feromônios sintéticos – que dão a gatos e cães um odor familiar. Terapias alternativas também geram alívio. Os animais, os tutores e o ambiente formam um sistema. Então, o tratamento não pode ser exclusivamente de um elemento. É necessário tratar cada item pra que tudo fique em harmonia.

Ainda assim é importante experimentar o luto naturalmente. Assim como todos os outros sentimentos, por mais dolorosos e difíceis de serem encarados, eles precisam ser vividos por nós e pelos nossos animais. Estamos aqui para ter experiências, e todas elas são importantes para a nossa evolução e a deles.

Sugestões de o que fazer se o animal

- Não come a ração. Introduza alimentos mais úmidos ou petiscos. Caso a falta de apetite persista, procure um especialista.

- Fica antissocial. Aumente o carinho. Caso não possa estar presente, deixe uma pelúcia ou uma roupa sua na casinha e tente manter rádio ou TV ligados. A alternativa de adotar um novo pet deve levar em conta o comportamento natural do atual animal e do novo. 

- Espera pelo tutor que morreu. Crie um novo hábito para aquele horário.

Assine nossa Newsletter
Mapa do Site